ARTIGO: A misoginia gera dor e lucro | Vanessa Buosi

Foto: Vanessa Buosi

É março de 2026 e talvez o único motivo que tenhamos para comemorar no “mês das mulheres” seja o fato de que o sexo feminino, por natureza e por exigência da própria vida, é resiliente: seguimos vivas, resistindo. Resistimos às desigualdades salariais, às triplas jornadas de trabalho, à violência psicológica e patrimonial, aos relacionamentos abusivos, ao gaslighting, aos assédios, às importunações, aos estupros e à misoginia. Esses não são conceitos abstratos, mas relatos reais que ouvimos todos os dias em atendimentos a mulheres em situação de vulnerabilidade no projeto OAB Para Elas. É com esse peso que deveríamos olhar para o dia 8 de março, data que simboliza conquistas, mas ainda convivemos com desigualdades impostas pelo machismo estrutural e com o aumento dramático dos casos de feminicídio, estupros de menores e das comunidades misóginas no Brasil.

A violência que vemos hoje nasce nesses ambientes. A misoginia — ódio, desprezo e preconceito contra mulheres — é alimentada na chamada “machosfera” e resulta em dados alarmantes: quatro mulheres são mortas todos os dias no país. Mais grave ainda é que esse tipo de discurso tem gerado lucro e engajamento para influenciadores e plataformas digitais. Estudo do Desinfo.POP, da Fundação Getúlio Vargas, aponta crescimento expressivo dessas comunidades no Telegram: cerca de 225 mil pessoas em 85 grupos, com aumento de aproximadamente 600 vezes no volume de conteúdos entre 2019 e 2025, totalizando milhões de mensagens. A misoginia digital, como destaca a mestre em Políticas Públicas Lívia Lucca, “não é marginal, nem amadora, nem improvisada. Ela é organizada!”.

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Mas somos mulheres. Como já dizia Milton Nascimento, somos uma “gente que ri quando deve chorar”. Por isso, acreditamos em formas efetivas de combate. Uma delas é a criminalização da misoginia. No dia 11 de março, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou o PL 896/2023, que propõe incluir essa conduta na Lei de Racismo. O projeto ainda precisa ser votado pelo Plenário do Congresso Nacional. Mais do que isso, são necessárias leis e políticas públicas que combatam discursos de ódio e promovam autonomia, igualdade econômica e acesso das mulheres aos espaços de poder. Só assim teremos motivos reais para comemorar.

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