A recente declaração do ator Juliano Cazarré, em rede nacional, afirmando que mulheres matariam mais homens do que homens matam mulheres no Brasil, ultrapassa o campo da opinião pessoal e entra no terreno da desinformação. Em temas sensíveis como violência doméstica e feminicídio, números não podem ser utilizados de forma irresponsável para sustentar narrativas ideológicas. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde que o crime foi tipificado, em 2015. Em aproximadamente 80% dos casos, o autor é o parceiro ou ex-parceiro da vítima. São dados oficiais, públicos e amplamente documentados.
O problema da fala não está apenas na imprecisão dos números, mas na comparação utilizada para induzir uma falsa equivalência. Ao reunir todas as mortes violentas de homens, incluindo latrocínios, conflitos urbanos e crimes entre facções, e compará-las exclusivamente aos casos de feminicídio de mulheres, cria-se uma distorção da realidade. Feminicídio não representa toda morte de mulher, mas o assassinato motivado pela condição de gênero, geralmente ligado à violência doméstica, ao controle e à misoginia estrutural. Misturar categorias diferentes apenas produz desinformação e enfraquece o debate público.
Essa prática possui consequências sociais e jurídicas relevantes. O Brasil é signatário da Convenção de Belém do Pará, que estabelece o dever de combater todas as formas de violência contra a mulher, inclusive por meio da informação correta à sociedade. Além disso, o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ reconhece a violência simbólica, caracterizada por discursos e narrativas que perpetuam desigualdades e desacreditam vítimas. Quando figuras públicas relativizam a gravidade do feminicídio, colaboram para a banalização de uma violência estrutural que já vitimou milhares de mulheres brasileiras.
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Debater masculinidade é legítimo e necessário. Mas qualquer debate sério exige responsabilidade com os fatos e compromisso com a verdade. Mulheres assassinadas não são números manipuláveis para alimentar polêmicas em horário nobre. São vidas interrompidas em um país que ainda enfrenta enormes dificuldades para proteger suas mulheres, e isso jamais pode ser tratado com leviandade.
Vanessa Buosi é advogada e presidente da Comissão da Mulher Advogada da 45ª Subseção da OAB de Fernandópolis. Idealizadora e coordenadora do projeto OAB Para Elas, é especialista em Violência Doméstica e Segurança Pública pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto.
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